2012-12-19

 Suwon, 19 de dezembro de 2012.


Meu querido Raphael,

Provavelmente você não vai entender nada do que eu estou escrevendo aqui. A tua maior preocupação agora deve ser para que o Natal chegue logo para você abrir logo os teus presentes. Deve se preocupar com coisas mais importantes que nós, adultos, que preocupamos com coisas irrelevantes como trabalhar, ganhar dinheiro e cuidar da casa.

No entanto, neste final de semana, eu recebi a notícia na TV de que um jovem entrou em uma escola nos Estados Unidos para atirar e matar crianças. A maioria das crianças mortas nessa chacina tinham 5 a 7 anos. Eram crianças da tua idade, que tinham ainda muito o que aprender, a brincar, a crescer e a fazer neste mundo.

É muito difícil entender por que alguém poderia fazer algo desse tipo: parece-me insuportavelmente desumano. Mais difícil ainda é tentar imaginar qual seria a dor de perder um filho desta maneira. Eu nunca perdi alguém muito próximo nos meus 40 anos de vida, e creio que uma pessoa só será completamente humana quando experimentar o luto algum dia. Mas já ouvi dizer que não existe dor maior que ter de sepultar o seu próprio filho. Junto com o filho, sepultamos as esperanças que depositamos nele, a alegria de nossa casa, o nosso legado que queríamos passar para ele. Sepultamos uma parte muito importante de nós.

Mesmo assim, eu creio que há algo pior que perdê-lo desta maneira. Jesus disse que deveríamos temer menos aquele que pode matar o nosso corpo que aquele que pode levar ambos o corpo e a alma para o inferno. Creio que maior dor eu terei se eu vê-lo tornar-se uma pessoa cruel e desumana, exatamente o oposto do que eu e a mamãe desejamos que você seja. Nós tentamos, apesar de falharmos tantas vezes, ensiná-lo a fazer a coisa certa e a pensar nos outros. Desejamos com todo o nosso coração que você realmente conheça o Papai do Céu de verdade, não só de ouvir falar de nós; que você o ame e o sirva com a sua vida.

Eu sei que você não me pertence: eu me considero um mordomo a quem foi confiada a vida de alguém muito especial e precioso. Sou responsável em providenciar as condições para você crescer com saúde e amor, em preparar você para viver neste mundo, e em te dar a melhor orientação que pudermos com a nossa experiência de vida. Mas você não é um computador para ser programado: você é uma pessoa com uma personalidade própria. Por isso, é você quem vai decidir o que fazer com a tua vida, não eu nem a mamãe. Sei que posso perdê-lo a qualquer momento; seja para uma pessoa armada com problemas psiquiátricos, seja para um assaltante, seja para alguém que te leve ao mau caminho, ou mesmo para você mesmo.

Mesmo assim, eu sempre te amarei, e farei o que tiver ao meu alcance para que você seja feliz sendo bênção na vida das pessoas ao teu redor, mesmo se um dia eu perdê-lo. É assim que o nosso Papai do Céu é: ele nos amou, mesmo a gente estando longe da sua presença, do seu caminho e da sua vontade. Eu quero te amar com pelo menos um pedacinho de amor que ele tem por mim.

A Bíblia diz que, depois da provação de Jó, Deus devolveu tudo o que ele tinha perdido em dobro: o dobro do seu gado, das suas propriedades, das suas riquezas. No entanto, Deus deu o mesmo número de filhos que Jó tinha perdido, não o dobro. Isso para mim é um sinal de que, para Deus, a perda dos filhos de Jó não foi exatamente uma perda. Este será o meu consolo se um dia isso acontecer: de que você estará seguro nas mãos de Deus, mesmo que passe pelo vale da sombra da morte. Você nunca estará perdido se permanecer nele.

Eu te amo, filho,

De seu pai,

Hélio.

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